quarta-feira, 19 de agosto de 2020
Semana dos Contos - Sagarana
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
Semana Machado de Assis - Dom Casmurro


quinta-feira, 13 de agosto de 2020
Semana Machado de Assis - Quincas Borba
Quincas Borba
Principais personagens de Quincas Borba
- Quincas Borba: Era um intelectual que vivia em Barbacena (MG). Apaixonado pela irmã de Rubião, a moça morreu jovem. Borbas já estava no Rio desenvolvendo e propagando sua filosofia, o Humanitismo, retratado no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ao morrer, não tinha herdeiros, apenas seu amigo Rubião e seu cão.
- Quincas Borba (cachorro): O cão de Borbas recebeu o mesmo nome e, assim como Rubião, era o fiel escudeiro de Borbas. Era um cachorro de estatura média, pêlos cor de chumbo e malhado com preto, muito precioso para Quincas.
- Pedro Rubião: Era professor primário e tornou-se enfermeiro de Quincas Borba além de discípulo do Humanitismo. Era o mais ingênuo de todos que haviam ao seu redor e, quando Borbas morreu, a herança inteira e o cachorro ficaram para ele.
- Sofia Palha: Mulher de Cristiano Palha, era também a musa de Rubião. É descrita como uma jovem e belíssima senhora, que encantava a todos os homens.
- Cristiano Palha: Também chamado de “capitalista” por se envolver em práticas liberais de mercado, era também interesseiro e oportunista. Fazia de tudo para formar fortuna e via em Rubião uma oportunidade para enriquecer, aproveitando-se de sua inocência.
Enredo inicial
A história é narrada em torno da vida de Pedro Rubião de Alvarenga. Ele era um ex-professor primário que se tornou enfermeiro do filósofo Quincas Borba. Com a proximidade, tornou-se também fiel discípulo da filosofia inventada por Borbas, o Humanitismo.
Quincas havia falecido de loucura no Rio de Janeiro, na casa de Cubas. Toda essa história da jornada de Borba e sua morte foram narradas no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Após a morte, a fortuna foi herdada por Rubião, o único companheiro humano inseparável de Quincas.
Rubião morava em Barbacena, interior de Minas Gerais, e era o homem mais ingênuo de todos que haviam ao seu redor. Além de herdar integralmente a herança (móveis, casa, investimento, etc), herdou também o cachorro, chamado Quincas Borba.
De uma hora para a outra ficou muito rico e decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro. Na estação, acabou conhecendo o casal Palha: Cristiano e Sofia. O casal aparentou ser muito amigável e se comprometeram a apresentar-lhe à corte e auxiliá-lo para que ninguém o enganasse.
Desenvolvimento
O casal Palha só fez isso porque, na verdade, queria aproveitar de sua inocência e administrar a herança recebida. Com o tempo, o interesse de Rubião por Sofia foi inevitável. Sofia notou a paixonite e resolveu aproveitar-se disso para envolver Pedro Rubião nos seus planos financeiros.
Acreditando que era correspondido, Rubião declarou-se à Sofia em um baile e ela logo em seguida foi comentar com o marido sobre a ousadia de Pedro. Cristiano tenta acalmar a esposa dizendo que estava devendo muito dinheiro a Rubião e não podiam romper agora. Sugeriu que ela continuasse insinuando para que eles pudessem explorar mais.
Rubião ficou frustrado com o impacto que causou em Sofia e decidiu sair do Rio. Contudo, Cristiano e Camanho, político que também se aproveitava de Rubião, insistiram que ele continuasse na cidade. Pedro foi facilmente convencido e permaneceu no Rio de Janeiro.
Rubião e Cristiano tornaram-se sócios de uma importadora chamada Palha & Cia. Com o tempo, o capitalista passou a ter controle total sobre a administração dos bens. A condição de vida do casal melhora e Rubião continua no círculos de amizade. Contudo, notou que outro homem, chamado Carlos, também cortejava Sofia.
Louco de ciúmes por causa de Carlos e de raiva por Sofia não querer fazer dele seu amante, Pedro grita com ela insinuando que ela era adúltera. Sofia era muito perspicaz e consegue contornar a situação, casando Carlos com sua prima.
Desfecho
Diante de mais confusão arranjada, Cristiano decide romper com a sociedade que tinha com Pedro. Alegava que precisava desligar-se da empresa para que conseguisse assumir cargos maiores no sistema financeiro. Na verdade, ele já tinha conseguido o que queria e precisava afastar Sofia de Rubião.
Pedro Rubião já estava insano, louco de desejo, e insiste em visitar Sofia. Ela estava de saída, entrando numa carruagem e ele resolveu entrar de supetão. Quando as cortinas se baixaram, Pedro declarou-se mais uma vez. Já delirando, acreditava ser o Imperador Napoleão III e queria que Sofia fosse sua amante.
Sofia percebeu a demência de Pedro e a notícia se espalhou pela cidade. Seus delírios aumentavam na mesma medida em que seu patrimônio diminuía. Alguns conhecidos insistiram que o casal Palha assumisse a responsabilidade de cuidar do doente.
Assim feito, transferiram-no para uma casa simples e depois internaram-no em um hospício. Contudo, Rubião fugiu acompanhado do cão e retornou à Barbacena. Não havia ninguém para os abrigar e eles dormiram na rua como mendigos. No dia seguinte Rubião morre na miséria e na loucura.
Análise de Quincas Borba
Contexto Histórico
A segunda metade do século XIX é um momento de profundas transformações tecnológicas e sociais. Acreditava-se poder alcançar a verdade (o que é objetivo e concreto) por meio dos recursos da ciência, do Positivismo, do Determinismo, do Evolucionismo. Não havia confiança em crenças, sentimentos ou convenções sociais.
Esse momento cético refletiu fortemente na literatura, e nesse contexto surge o Realismo. Machado de Assis ficou famoso como representante do Realismo brasileiro, pois a racionalidade, a crítica e análise dos comportamentos são bem evidentes em suas obras.
Porém, Machado foi além visto que questionava até mesmo os fundamentos do Realismo. Filosofava sobre esse espírito realista e as tendência passadas, e mesmo em terceira pessoa, expressou alguns desses pensamentos e críticas no Humanitismo de Quincas.
Estrutura, Linguagem
Primeiro é necessário compreender que o narrador de 3° pessoa é alguém que está fora da narrativa, não participa como personagem. Como narra toda a história, é dito onisciente. Contudo, o narrador de 3° pessoa não é a mesma coisa que o escritor.
O escritor é simplesmente quem escreve e pode escolher outro ser, ou ninguém, para ser o narrador. Contudo, nesta obra especificamente, Machado de Assis se põe como narrador, configurando um narrador/escritor.
A passagem a seguir quebra a objetividade do narrador de 3ª pessoa e mostra essa confluência. Pode-se dizer até que essa obra tem um tom a menos de formalidade que a sua antecessora, mesmo sem deixar de lado o estilo de Machado:
“Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora, em Barbacena”.
As narrativas de Memórias Póstumas de Brás Cubas e de Quincas encontram-se no início do capítulo IV, como se fora uma continuação. Entretanto, as histórias dos livros são completamente diferentes e tratam de pessoas diferentes. O elo entre os romances é apenas o Humanitismo.
Intertextualização e Filosofia
Segundo o Humanitismo de Quincas Borba, a vida é um campo de batalha onde só os mais fortes sobrevivem e que fracos e ingênuos são manipulados e aniquilados pelos superiores e espertos.
Levava isso tão à sério e considerava tão natural que afirmou:
“Nunca há morte. Há encontro de duas expansões, ou expansão de duas formas”
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas explica sua filosofia com uma frase:
“Ao vencedor, as batatas”
Essa frase veio de uma exemplificação concreta de sua filosofia, entenda:
“Supões-se em um capo de duas tribos famintas. As batatas apenas chegavam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrerão de inanição.
A paz, neste caso, é a destruição; a guerra, é a esperança. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí, a alegria da vitória, os hinos, as aclamações. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se. Ao vencido, o ódio ou compaixão…..Ao vencedor, as batatas !”
Análise final da obra
Diante de todas essas informaçõe prévias, podemos concluir que Quincas Borbas é a concretização da tese do Humanitismo, pois a trama passa em torno das relações sociais e demonstra que os que nasceram para ser fracos (Rubião) sempre serão dominados e explorados pelos espertos (Casal Palha).
A falta de escrúpulos do casal Palha nada mais é que o comportamento de várias outras personagens da vida real e do próprio livro, como o político. São paródias satíricas da crença do romantismo na sinceridade e virtudes humanas.
Demonstra Cristiano como todo falso amigo é e Sofia como as mulheres que sempre usaram as armas da sedução para seu objetivos. Além disso, a temática da traição sempre presente nas obras do autor é insinuada no interesse que Sofia manifesta pelos homens que a cortejavam.
De forma geral, denuncia uma sociedade improdutiva e parasitária, dissimulada e cheia de máscaras. Explicita o fetiche pelos bens e o jogo de aparências exerce grande influência e a demonstração de poder é até maior que o poder em si.
O Humanitas é o ser como é na realidade, simplesmente um aproveitador das oportunidades para sua sobrevivência. Rubião, por sua vez, é o anti-Humanitas, porque nada na sua vida foi conquistado, com a fortuna que caiu em seus braços. Sendo fraco, foi assolado, algo perfeitamente plausível.
Além do mais, a loucura gradativa já havia afetado Quincas e foi causa da morte de ambos. Ela é a confirmação do destino de quem acreditou excessivamente na aparência. É como se tudo fosse permitido em nome da substância original e a moralidade aparente escondesse a imoralidade da essência dessas relações.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Semana Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas
“Memórias Póstumas de Brás Cubas”
Saiba porque esse romance é um dos mais celebrados da história da literatura brasileira
Ao criar um narrador que resolve contar sua vida depois de morto, Machado de Assis muda radicalmente o panorama da literatura brasileira em Memórias Póstumas de Brás Cubas, além de expor de forma irônica os privilégios da elite da época.
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Livros de Vestibular - Parte 3 - A Relíquia
“A Relíquia” – Resumo e Análise do livro de Eça de Queirós
Entenda o enredo e os principais aspectos da obra
A Relíquia trata-se de uma obra que associa à narrativa de viagem um olhar bem-humorado sobre a condição de adaptação humana, em seus interesses de posse e em suas ilusões sociais e afetivas, por meio de negociações íntimas, por vezes conflitivas, entre o sacrifício e a recompensa. Do mesmo modo, o autor desenvolve as reflexões do protagonista em um constante diálogo entre a verdade e a fantasia, como anuncia em uma famosa epígrafe editada junto ao título: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”.
Romance realista de 1887 publicado na cidade do Porto, em Portugal, A RELÍQUIA chegou para o leitor brasileiro por meio de folhetins publicados na Gazeta de Notícias, periódico que circulou no Rio de Janeiro, de 1875 a 1942. Em seu formato atual está distribuído em cinco capítulos, antecedidos por um prólogo explicativo do narrador-personagem. Carrega todas as características do Realismo de um Eça de Queirós severo e sarcástico, em relação aos moldes sociais determinados por valores católicos, em seu tempo.
FOCO NARRATIVO
O romance é narrado em primeira pessoa. Teodorico Raposo, o “Raposão”, assume a empreitada da escrita com o seguinte propósito, segundo afirma no prólogo: “decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro […], as memórias da minha vida” […] “Esta jornada à terra do Egito e à Palestina permanecerá sempre como a glória superior da minha carreira; e bem desejaria que dela ficasse nas letras, para a posteridade, um “monumento airoso e maciço”.
TEMPO E ESPAÇO
As memórias de Teodorico Raposo se distribuem progressivamente, em um tempo psicológico que recupera os fatos de sua infância, com o pai; da adolescência, já órfão, sob os cuidados da tia; da juventude, em Lisboa, tendo passado pela faculdade de Coimbra e, depois, a empreender a longa viagem à Terra Santa, ambiente central da narrativa, onde se passa a maior parte das suas aventuras.
CONEXÕES
Ao criar um “narrador-autor” de suas memórias, um tanto cético, prepotente, orgulhoso de sua “carreira”, sem o peso do trabalho nas próprias costas, dado aos desejos mundanos e à boa vida burguesa, o leitor brasileiro logo o associará ao Brás Cubas, protagonista das “Memórias póstumas…”, obra maior do Realismo brasileiro, escrita por Machado de Assis, publicada em 1881.
ENREDO E TRAMA
A trama se desenvolve ao redor do conflito latente entre duas personalidades. A primeira, a poderosa Dona Maria do Patrocínio, também chamada D. Patrocínio das Neves, Tia Patrocínio e, com mais frequência, Titi. Excessiva na riqueza e na entrega aos ritos religiosos, chegando a ser, nas tintas de Eça de Queiroz, uma caricatura das devotas católicas das coisas da igreja. Do outro lado, seu sobrinho Teodorico Raposo, o Raposão, narrador de suas próprias aventuras, órfão logo cedo, entregue aos cuidados da tia, em Lisboa.
Primeiro é enviado a um colégio interno e, em seguida a Coimbra para seguir seus estudos. De volta à casa de Titi, em Lisboa, conhece Adélia, de quem se torna amante. Após ser traído e abandonado por ela, tenta, em vão, convencer sua tia, de quem já havia conquistado a confiança, a enviá-lo a Paris. Para Titi a cidade francesa era ambiente de intensa devassidão. Consegue, contudo, ser seu portador de intenções religiosas em peregrinação a Jerusalém. Apesar de rejeitar o destino, aceita a viagem, imaginando as possíveis aventuras amorosas nas cidades que conheceria ao longo do itinerário.
Trava amizade com Topsius, estudioso alemão, antropólogo e historiador, no início da viagem, em Malta. Em Alexandria conhece também a inglesa Miss Mary, “comerciante de luvas e flores de cera”, de quem se fará amante durante a curta, mas intensa estadia. É uma camisa de Miss Mary, por ela entregue como lembrança dos momentos íntimos do casal, que estará em um embrulho de papel sempre junto do narrador-personagem. Será esse embrulho, na volta a Lisboa, protagonista do desmascaramento do Raposão.
Ao chegarem à Palestina, Teodorico interessa-se apenas por uma vizinha de quarto, casada. Não consegue a aproximação desejada e, com o amigo historiador, buscará entretenimento em uma casa de dançarinas. Em ambiente descrito como repugnante, com mulheres pouco atraentes e hostis, também não conseguirá aplacar seus desejos mais físicos, mesmo tendo dispendido boa quantidade de dinheiro. Seguem para Jerusalém.
Em um primeiro momento, Teodorico se vê envolto na sequência de acontecimentos ligados à Pascoa cristã. Descreve sua efetiva participação nas sagradas cenas que culminam com a morte e ressurreição de Jesus. Apesar de detalhada, o narrador acaba por revelar que sua experiência não passara de um sonho.
Teodorico confirma em Jerusalém real, bem distante de suas oníricas imaginações, a expectativa que formara em Lisboa acerca da Terra Santa. Seu desinteresse só foi quebrado por um bilhar e, um pouco antes, pela descoberta de uma suposta árvore de espinhos, de onde teria saído o galho que forjara a verdadeira coroa de espinhos de Jesus crucificado. Estava ali a relíquia encomendada por Dona Patrocínio, certificada pelo amigo Topsius como lembrança muito original e que, finalmente, faria dele um herdeiro universal. Embrulhada em uma folha de papel pardo, contudo, confundido com o embrulho da camisa de Miss Mary, do qual, aliás, precisava se livrar antes de chegar à casa da tia, foi entregue de boa-fé, a uma pedinte já quando faziam o caminho de volta. E para completar o desastre, o embrulho da amante foi entregue à tia.
Expulso de casa (e da herança!), experimenta uma fase de redenção e passa a viver da venda de relíquias que, agora, depois de perceber que constituiriam desejada e valorosa mercadoria em Lisboa, principalmente porque chegara “fresquinho de Jerusalém”, ele mesmo fabricava. O negócio, apesar de próspero, entra em declínio com o passar do tempo. A tia falece e para Teodorico deixa em testamento apenas seu “óculo”.
Casou-se com a irmã do Cotrim, colega dos tempos do colégio interno que, afinal, o ajuda a se erguer para uma vida comum. Oferecera-lhe emprego e lhe apresentara a irmã. Torna-se pai, possui carruagem, recebe a comenda de Cristo, mas não deixará de pensar no revés provocado por não ter conseguido afirmar, àquela altura, na entrega da encomenda à tia, que a camisa pertencera a “Santa Maria Madalena”, por propícia coincidência das iniciais deixadas por Miss Mary no bilhete que acompanhava a “relíquia” das intimidades afetivas, no embrulho de papel.
ANÁLISE A PARTIR DAS PERSONAGENS
A mentira autêntica e a coroa de espinhos
Teodorico conduz uma alma jovem e vibrante, fascinado pelo amor que, oposto aos requintes das letras românticas, mostra-se carnal, instintivo, aguçado, mas estará sob os cuidados das carolas e inflexíveis regras de Dona Patrocínio. Com o desenrolar dos fios de um enredo em que lemos o olhar crítico do autor português, a denunciar as hipocrisias dos moralistas jogos de cena, lemos a astúcia de Raposão, rápido e cuidadoso a administrar seus movimentos para atender aos apelos de sua idade e, ao mesmo tempo, mostrar-se casto aos olhos de sua tutora. A esperar a morte breve da tia, todos os sacrifícios para ocultar seus verdadeiros desejos somam-se como um amoral e perverso investimento do protagonista.
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Livros de Vestibular - Parte 2 - Memórias de Um Sargento de Milícias
“Memórias de um Sargento de Milícias” – Análise da obra
Entenda os principais aspectos do livro de Manuel Antônio de Almeida
Duas forças de tensão movem as personagens do romance: ordem e desordem, que se revelarão características profundas da sociedade colonial de então.
A figura do major Vidigal representa o polo que, na história, cuida da ordem: “O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que dava e distribuía penas e, ao mesmo tempo, o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua justiça não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processos; ele resumia tudo em si (…)”.
A estabilidade social representa a ordem, enquanto a instabilidade se refere à desordem. Dessa forma, o barbeiro, completamente adequado à sociedade, ao revelar as origens pouco recomendáveis de sua estabilidade financeira, evoca no seu passado a desordem.
O major Vidigal, por exemplo, um típico mantenedor da ordem, transgride o código moral ao libertar e promover Leonardo em troca dos favores amorosos de Maria Regalada.
O gênero picaresco – do qual o mais ilustre representante é o romance Lazareto de Tormes – caracteriza-se por narrar, em primeira pessoa, os infortúnios de um pícaro, um garoto inocente e puro que se torna amargo à medida que entra em contato com a dureza das condições de sobrevivência. Por isso procura sempre agradar a seus superiores. O pícaro tem geralmente um destino negativo, acaba por aceitar a mediocridade e acomodar-se na lamentação desiludida, na miséria ou num casamento que não lhe dá prazer algum.
Existem, de fato, algumas semelhanças entre Leonardo e os personagens picarescos. Uma é a atitude inconsequente do protagonista, que o leva, por exemplo, a esquecer-se rapidamente de Luisinha ao conhecer Vidinha. Depois, o amor antigo retorna, mas nada dá a entender que não possa acabar novamente. Essas semelhanças, porém, são superficiais, por isso é problemática a classificação de “Memórias de um Sargento de Milícias” como romance picaresco.
É mais apropriado, por isso, classificar essa obra como um “romance malandro”, de cunho satírico e com elementos de fábula. Esse gênero frutificará em vários romances posteriores, como “Macunaíma”, de Mário de Andrade, e “Serafim Ponte Grande”, de Oswald de Andrade.
Acompanha-se no livro o crescimento do “herói” Leonardo, desde sua infância de travessuras, suas primeiras ilusões amorosas e aventuras, até sua fase adulta com trabalho e casamento. A dinâmica da narrativa é repleta de humor que envolvem situações tidas como amorais, e em diversas passagens há uma conversa direta com o leitor, digressões e metalinguagem. Além disso, durante a obra o autor busca em alguns momentos relacionar o tempo passado com o presente, comenta a profª. Augusta.
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
Livros de Vestibular - Parte 1 - Mayombe
“Mayombe” – Análise da obra de Pepetela
Um livro que retrata os desafios e contradições entre militantes que lutaram pela independência de Angola, país colonizado por Portugal, nos anos de 1970.
Publicado originalmente em 1980, Mayombe foi escrito durante a participação do escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) na guerra de libertação de Angola na década de 70. Recompõe o cotidiano dos guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em luta contra as tropas portuguesas. O romance, inovador, aborda as ações, os sentimentos e as reflexões do grupo, e as contradições e os conflitos que permeavam as relações daqueles que buscavam construir uma nova Angola, livre da colonização.
Foco narrativo
A obra é organizada em seis capítulos nos quais há variação do foco narrativo – um narrador onisciente e onipresente se intercala com as personagens, guerrilheiros do MPLA, no papel de narrador da história. Com isso, Pepetala demonstra que nem mesmo a revolução se organiza como um conjunto, sendo enxergada de forma diferente e conflitante pelos seus próprios membros. Cada um desses observadores-participantes, com origem, ideologia, visão e propostas próprias, possuem também ideais distintos que os impedem de lutar pela mesma unidade libertadora.
Tempo
“O Mayombe começa com um comunicado de guerra. Eu escrevi o comunicado e… o comunicado pareceu-me muito frio, coisa para jornalista, e eu continuei o comunicado de guerra para mim, assim nasceu o livro”, escreve o autor numa obra híbrida entre o romance e a reportagem.
Mayombe, nome de uma região da África, é uma narrativa em tempo cronológico que analisa profundamente a organização dos combatentes do MPLA, lançando luz às dúvidas, que também eram as do autor, sobre as contradições, medos e convicções que impulsionavam os guerrilheiros em busca de liberdade no interior da densa floresta tropical. Eles confrontam-se não só com as tropas colonizadoras portuguesas, mas também com as diferenças culturais e sociais que procuram superar em direção a uma Angola unificada e livre.
Enredo
O livro é dividido em seis capítulos: A Missão; A Base; Ondina; A Surucucu; a Amoreira e o Epílogo. Os personagens são nomeados como alegoria de guerra conforme os objetivos do MPLA. Assim, temos o personagem Sem Medo (o comandante), Teoria (o professor), Verdade e Lutamos (destribalizados) e Mundo Novo, representante da elite africana que vai estudar fora de seu país, entre outros.
Ondina, a personagem feminina, é a mulher que instaura as transformações em alguns guerrilheiros do Mayombe. Por exemplo, o Comissário Político, seu noivo, é obrigado a amadurecer diante da traição e do rompimento da relação com ela. Sem Medo é impelido a refletir sobre o amor e a sacrificar seu desejo por ela.
Interessante notar que Ondina é a personagem que não tem voz na narrativa de Pepetela, o que reflete a crítica para a desigualdade de gênero na luta instaurada em Angola por libertação e justiça.
Por fim, a floresta – personagem – gesta um novo homem para um novo momento histórico em Angola. Pepetela, por meio da apropriação do espaço do Mayombe, procura, simbolicamente, percorrer a história angolana por meio do território invadido e ocupado pelos colonos, seja no que diz respeito à terra ou à identidade do povo de Angola.
Análise
A obra é uma reflexão, envolta pelos ideais socialistas, sobre a dura realidade da sociedade angolana, sobre as perspectivas do movimento de libertação e da população local em relação aos princípios conflitantes do MPLA.
Cada personagens luta a seu modo por seus ideais de libertação. Em meio a isso, vimos uma Angola despedaçada e sem unidade. O livro procura retratar esse desfacelamento e critica as lutas de grupos que não se unem por um ideal comum.
A estrutura narrativa polifônica (várias vozes), que retrata os acontecimentos sob o ponto de vista de várias personagens em primeira pessoa, revela o profundo respeito a cada homem na sua individualidade e o desejo do autor de transformar os agentes da revolução em sujeitos da luta.
Durante toda a narrativa, ocorre um mesmo registro linguístico, apesar do abismo existente entre as classes sociais das personagens e as suas origens culturais, o que reforça a ideia de propor a igualdade entre as pessoas. Além disso, há a tentativa de criar um ideal nacionalista que una os diferentes povos da região e o MPLA em oposição ao colonialismo.
Conexões
Ao retratar a luta de tribos em busca da libertação de seu país, Mayombe pode ser comparado ao romance indianista Iracema, de José de Alencar. Ambas apresentam conflitos entre tribos e a tentativa de se isolar do colonialismo português.







