quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Semana Drummond - Quadrilha

Carlos Drummond de Andrade

Retrato de Carlos Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade (31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987) é um dos maiores nomes da literatura brasileira, sendo apontado como o maior poeta nacional do século XX.

Membro da segunda geração do modernismo brasileiro, Drummond teve um enorme impacto no nosso panorama literário, com uma obra poética que quebrou as tradições das escolas anteriores.

Focados nas questões sociopolíticas da época mas também nas experiências e emoções do indivíduo, os seus poemas se caracterizam por terem uma linguagem acessível e abordarem temas do cotidiano, abandonando preocupações formais antigas, como a rima.

Poema Quadrilha

Quadrilha é um poema de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, na sua primeira obra Alguma Poesia. Trata-se de uma célebre composição que fala sobre as dificuldades e os desencontros do sentimento amoroso.

Assim como em outros poemas do autor, aqui o que está em jogo é a solidão do sujeito no mundo e a sua dificuldade em estabelecer laços com aqueles que o rodeiam.



Poema Quadrilha

"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."


Escute o poema declamado pelo próprio autor:



Análise do poema Quadrilha

Carlos Drummond de Andrade foi um dos poetas que integraram a segunda geração do modernismo brasileiro. Quadrilha, como outras composições do autor, incorpora algumas características do movimento: o verso livre, as formas populares, as temáticas do cotidiano e linguagem coloquial.

A princípio, este parece ser um poema de tom quase infantil que narra paixões adolescentes. O seu desfecho, no entanto, remete para a vida adulta e suas vicissitudes.

Primeira metade

"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém."

Os primeiros três versos do poema apresentam várias paixões não correspondidas. Todos os indivíduos, menos Lili, amavam sem serem amados de volta.

Desde o começo, podemos perceber que a confusão de sentimentos e os desencontros sucessivos marcam a história que o sujeito está narrando. Fica evidente a ideia de que o amor não é fácil de achar e muito menos de se concretizar.

Segunda metade

"João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."

Nos quatro versos restantes, ficamos conhecendo o destino dos personagens que foram apresentados acima. Descobrimos que uns partiram e outros morreram.

Todos parecem ter ficado sozinhos ou deixado escapar o amor, seguindo seus destinos em diferentes direções. Do grupo, a única que se casou, afinal, foi Lili ("que não amava ninguém").

A referência ao seu marido surge de forma bastante impessoal, sem um nome próprio. "J. Pinto Fernandes" aparenta ser uma designação comercial, que identifica um negócio ou uma empresa, não uma pessoa.

Assim, o uso do termo pode insinuar que existe um relacionamento distante, ou até de interesse, entre o casal. De qualquer forma, o poema sublinha a imprevisibilidade da vida e do próprio sentimento amoroso.

Com humor e também com alguma tristeza, o poema reflete sobre os desafios que os indivíduos encontram nas vivências das suas paixões e que diminuem as possibilidades de encontrar um relacionamento feliz.

Interpretação e significado do poema Quadrilha

O título do poema parece ser uma referência à dança que virou tradição nas festas juninas brasileiras. Metaforizado pela quadrilha, o amor surge como uma dança onde os pares estão trocados e os sentimentos não são correspondidos.

Quase todos estão apaixonados e são alvo da adoração de alguém, mas as linhas parecem estar cruzadas e nenhum relacionamento cresce ou se concretiza.

Com uma perspectiva bastante pessimista, o sujeito poético retrata o amor como algo absurdo, uma espécie de jogo de sorte que apenas alguns têm a oportunidade de vencer.

De forma simples e usando exemplos concretos, do cotidiano, a composição ilustra o desespero do sujeito, e daqueles que os rodeiam, para quem o amor verdadeiro parece ser praticamente impossível.
Fonte: Cultura Genial











sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Semana Sertaneja - Morte e Vida Severina

Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto 



Morte e Vida Severina é um dos poemas mais longos da literatura brasileira e traz, de uma maneira crua e, ainda assim, emocionante a trajetória de um retirante nordestino para fugir da seca e da morte.

Resumo

O poema se inicia com a apresentação do herói Severino, que conta sua trajetória pelas margens do rio Capibaribe até a capital pernambucana, Recife, a fim de alcançar uma vida melhor.

Num primeiro momento, o herói encontra dois homens carregando um defunto, chamado Severino, que teria sido morto a tiros por causa de terra.

Mais adiante, se depara com um grupo de pessoas rezando em torno de um morto, também de nome Severino. Seguindo seu trajeto, ele encontra uma senhora, dona de uma casa boa e aparentemente abastada.

Com ela, Severino tenta algum trabalho como lavrador. Entretanto, a única profissão que tem futuro naquela região é a que lida com a morte.

À medida que Severino vai encurtando a distância do litoral, ele percebe que a vegetação aumenta e que a terra é mais fofa. Contudo, a morte ainda marca presença. No caminho, encontra um cemitério onde acontece o funeral de um lavrador.

O rio retorna à vida; as árvores crescem e florescem; as folhas caem mais livres. É assim que o cenário vai se apresentando conforme Severino se aproxima de Recife.

Chegando na capital, ele escuta a conversa de dois coveiros. Percebe, então, que embora a temática da morte pela seca não exista mais, agora, a morte ocorre de outras formas. No mangue, para os retirantes que sofrem com inundações, miséria e marginalização, muitas vezes o suicídio é a única saída.

É aí que Severino se dá conta de que, como os outros retirantes do sertão que percorreram a mesma trajetória, a vida não abrandaria na capital. No cais, o lavrador cogita tirar a própria vida.

Conhece nesse momento José, trabalhador do mangue, e com ele conversa sobre a pobreza na capital e no sertão e sobre a morte e também sobre a vida.

A conversa é interrompida por uma mulher que comunica o nascimento do filho de José. Os vizinhos trazem presentes singelos para a nova vida que começa. Duas ciganas fazem previsões sobre o futuro do menino: trabalhador, no mangue ou na indústria e autor de uma vida simples.

Depois das previsões, os vizinhos começam a falar do menino recém-nascido: pequeno, magro, mas saudável – pronto para enfrentar o trabalho e seu destino.

E é assim que termina o percurso de Severino: antes tão cercado pela morte, agora o que o cerca é a vida severina.

Análise

Agora, para perceber o que este poema representa nas entrelinhas, é preciso destrinchá-lo para uma análise mais profunda.

Forma

A obra tem como subtítulo “Auto de Natal pernambucano”. Um auto é um subgênero da literatura dramática que surgiu na Espanha medieval.

Era uma forma frequentemente usada na Idade Média pelo clero com a finalidade de doutrinação e evangelização. Já que a intenção era, justamente, encaminhar as mensagens da Igreja às grandes massas, os autos medievais tinham caráter popular, linguagem mais objetiva e presença de cantos.

Em Morte e Vida Severina, a temática da religiosidade aparece no final, com o nascimento do filho de José, clara referência ao nascimento de Jesus – quando os cristãos comemoram o Natal.

Além disso, a forma da obra de João Cabral de Melo Neto faz alusão à forma dos antigos autos: divisão por partes, cada uma com uma breve apresentação do seu conteúdo; predominam as redondilhas maiores, versos com sete sílabas poéticas.

Afinal, quem é Severino?

Severino, nessa obra, não é apenas um nome. No título, o nome próprio ganha função de adjetivo e traz uma qualidade para a morte e para a vida.

No decorrer do poema, Severino é o nome de todos os retirantes que buscam uma vida mais branda na capital. Também é aquele que não consegue alcançar esse objetivo e é abraçado pela morte no meio do caminho.

Severino lavrador, finado Severino, Severinos de Maria. Essa universalização do nome induz o leitor a compreender que todos são os mesmos trabalhadores em busca da mesma vida e rodeados pelas mesmas dificuldades.

O próprio herói aborda isso no começo do poema, ao se apresentar com “Somos muitos Severinos,/iguais em tudo na vida”.

A palavra severina também pode fazer alusão ao adjetivo “severa”, ou seja, rígida, dura, exigente.

Morte Severina

A presença da morte persegue Severino em sua jornada. Desde a primeira parte, ele se apresenta explicando o que é a morte Severina: “a morte de que se morre/de velhice antes dos trinta,/de emboscada antes dos vinte/de fome um pouco por dia”.

A morte, na obra, pode ser “morrida” e “matada”. Morrida de fome ou de doença, matada de emboscada. Inclusive, o defunto que Severino encontra na segunda parte da obra morreu a tiros, por disputa de terras.

A morte é tão presente que ela rende frutos. As profissões que mais trazem riquezas são aquelas rodeadas por ela. Os funerais são muitos no sertão, mas o cenário não muda na capital.

É assim que a morte vem antes da vida na obra-prima de João Cabral de Melo Neto. Para muitos retirantes que circulam pela obra, a morte pode ser a maior riqueza.

Vida Severina

Com o nascimento do filho de José, nos momentos finais do auto, surge a grande epifania da obra. Sempre fugindo da morte, Severino descobre que ela, na verdade, sempre estará lá.

O que resta é viver essa vida, também Severina, dura, rígida, exigente da mesma forma que era no sertão, mas de maneiras diferentes. Quem antes fugia da seca e das balas, agora foge da miséria e da vontade de “saltar da ponte e da vida”.

Assim, com o nascimento – com o primeiro respiro de um menino na vida Severina – o poema termina com uma dose singela de otimismo.

Impacto social

Por trás de toda a beleza da obra, é muito clara a denúncia que ela carrega nos versos.

Primeiramente, a questão agrária é presente desde o começo. Seca, disputa por terras, falta de oportunidades em terras inférteis, fome… Essa denúncia também é extremamente evidente no funeral de um lavrador.

Nessa parte, os amigos do finado bradam os seguintes versos:


“Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca".

Nesse trecho, percebe-se que a cova em que um defunto é enterrado é a sua maior e melhor porção de terra. É onde ele se encontrará mais “ancho”, ou seja, mais largo e abastado. Ainda, é uma terrada dada, uma recompensa. Diante de tudo o que lhe fora negado em vida, não é permitido que o defunto reclame.

É preciso contentar-se com o pouco, adequar-se aos empecilhos e às mazelas que a terra traz à tona. Lavra-se pedra, planta-se a morte e, quando ela chega, aceita-se finalmente a terra dada, sua cova.

Para além disso, a miséria, de bens e de espírito, é outro fator denunciado nessa grande obra. No mangue, onde a vida poderia abrandar, as pessoas trabalham por migalhas e se rendem ao suicídio.

A pobreza material é notável na alusão ao nascimento de Jesus, que na obra é representado pelo filho do trabalhador José. Em vez do ouro, do incenso e da mirra, presentes dados ao recém-nascido na história bíblica, o bebê de Morte e Vida Severina recebe dos vizinhos presentes singelos e símbolos de uma vida difícil e miserável.

Caranguejos para se alimentar, jornal para se cobrir, água, boneco de barro, cajus, mangas… todos introduzidos pelos vizinhos com a frase “Minha pobreza tal é”.

Celebra-se uma vida em meio a tanta morte com o pouco que se tem, e é esse o último e também o primeiro suspiro de esperança.

Filme e outras adaptações

Por ser um poema tão rico em detalhes, algumas adaptações foram produzidas. Seja em forma de filme, animação ou até música, a trajetória de Severino já é conhecida por muitos brasileiros.

Filme – Morte e Vida Severina


Lançado em 1977 e dirigido por Zelito Viana, esse filme ilustra com bastante fidelidade a história de Severino, que é interpretado por José Dumont.

Animação


Essa animação incrível traz o poema completo rodeado de muitos detalhes visuais que, às vezes, não reparamos na primeira leitura. Vale muito a pena.
Fonte: Todo Estudo

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Semana Sertaneja - Vidas Secas

“Vidas secas” – Graciliano Ramos
Saiba mais sobre um dos maiores expoentes da segunda fase modernista



Vidas Secas”, romance publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca. A obra pertence à segunda fase modernista, conhecida como regionalista, e é qualificada como uma das mais bem-sucedidas criações da época.

O estilo seco de Graciliano Ramos, que se expressa principalmente por meio do uso econômico dos adjetivos, parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão.

A estética da seca

“Vidas Secas” é um dos maiores expoentes da segunda fase modernista, a do regionalismo. O diferencial desse livro para os demais da época é o apuro técnico do autor. Graciliano Ramos, ao explorar a temática regionalista, utiliza vários expedientes formais – discurso indireto livre, narrativa não-linear, nomes dos personagens – que confirmam literariamente a denúncia das mazelas sociais.

O livro consegue desde o título mostrar a desumanização que a seca promove nos personagens, cuja expressão verbal é tão estéril quanto o solo castigado da região. A miséria causada pela seca, como elemento natural, soma-se à miséria imposta pela influência social, representada pela exploração dos ricos proprietários da região.

Os retirantes, como o próprio nome indica, estão alijados da possibilidade de continuar a viver no espaço que ocupavam. São, portanto, obrigados a retirar-se para outros lugares. Uma das implicações dessa vida nômade dos sertanejos é a fragmentação temporal e espacial.

Graciliano Ramos conseguiu captar essa fragmentação na estrutura de Vidas Secas ao utilizar um método de composição que rompia com a linearidade temporal, costumeira nos romances do século XIX.

A proposital falta de linearidade, ou seja, de capítulos que se ligam temporalmente, por relações de causa e de consequência, dá aos 13 capítulos de Vidas Secas uma autonomia que permite, até mesmo, a leitura de cada um de forma independente.

Narrador

A escolha do foco narrativo em terceira pessoa é emblemática, uma vez que esse é o único livro em que Graciliano Ramos utilizou tal recurso. Trata-se, na verdade, de uma necessidade da narrativa, para que fosse mantida a verossimilhança da obra. Por causa da paupérrima articulação verbal dos personagens, reflexo das adversidades naturais e sociais que os afligem, nenhum parece capacitado a assumir o posto de narrador.

O autor utilizou também o discurso indireto livre, forma híbrida em que as falas dos personagens se mesclam ao discurso do narrador em terceira pessoa. Essa foi a solução para que a voz dos marginalizados pudesse participar da narração sem que tivessem de arcar com a responsabilidade de conduzir de forma integral a narrativa.

Espaço

A narrativa é ambientada no sertão, região marcada pelas chuvas escassas e irregulares. Essa falta de chuva – somada a uma política de descaso do governo com os investimentos sociais – transforma a paisagem em ambiente inóspito e hostil.

Inverno, na região, é o nome dado à época de chuvas, em que a esperança sertaneja floresce. O sonho de uma existência menos árida e miserável esboça-se no horizonte e dura até as chuvas cessarem e a seca retornar implacável. No romance, essa esperança aparece no capítulo “Inverno”, em que Fabiano alimenta a expectativa de uma vida melhor, mais digna.

O retorno à visão marcada pela falta de perspectivas recomeça com o fim das chuvas, com o fim da esperança. Na obra, pode-se apontar, também, para dois recortes espaciais: o ambiente rural e o urbano. A relevância desse recorte se deve às sensações de adequação ou inadequação dos personagens em um ou outro espaço.

Fabiano consegue, apesar da miséria presente, dominar o ambiente rural. Incapaz de se comunicar, o personagem, desempenhando a solitária função de vaqueiro, não sente tanto as consequências de seu laconismo. Além disso, conhece as técnicas de sua profissão, o que lhe dá uma sensação de utilidade e permite que goze até de certa dignidade. A passagem em que seu filho o admira ao vê-lo trabalhando deixa claro isso. Na cidade, porém, Fabiano vivencia, a cada nova experiência, o sentimento de inadequação. Os capítulos “Festa” e “Cadeia” ilustram bem essa sensação.

Tempo

Além da falta de linearidade do tempo, em “Vidas Secas” há nítida valorização do tempo psicológico, em detrimento do cronológico. Essa opção do narrador de ocultar os marcadores temporais tem como principal consequência o distanciamento dos personagens da ordenação civilizada do tempo.

Dessa forma, nota-se que a ausência de uma marcação cronológica temporal serve, enquanto elemento estrutural, como mais uma forma de evidenciar a exclusão dos personagens. Por outro lado, a valorização do tempo psicológico na narrativa faz com que as angústias dos personagens fiquem mais próximas do leitor, que as percebe com muito mais intensidade.

Comentário do Professor

A professora de Literatura do Cursinho do XI Ausonia Reda Luppi frisa que “Vidas Secas” é um romance cíclico. São 13 capítulos independentes que contam a retirada de uma família. Inicia-se com uma mudança e termina com a fuga.

A família é composta pelo pai – Fabiano – que quase não fala, não sabe que é branco e não sabe ler nem escrever. Sinhá Vitória, mulata esperta que sabia fazer contas com os grãos, Menino mais velho que queria saber ler e queria o significado da palavra Inferno. Menino mais novo, queria ser um vaqueiro como o pai. Cadela Baleia, a mais humana das personagens e um papagaio que não falava, só latia porque era o único som que escutava.

Segundo a professora, o vestibular pode cobrar a hierarquia apresentada no livro: como por exemplo, o que representa o Soldado Amarelo e a linguagem do Tomás da bolandeira, a quem Fabiano tanto admirava. Além disso, pode ser perguntado sobre o grau de miserabilidade dessa família: a cadela chegando ao nível humano e o humano descendo à condição de animal. Esta família vaga pela caatinga tentando chegar em algum lugar, mas podem estar perdidos, andando em círculo.
Fonte: Guia do Estudante

O Livro Vidas Secas também está disponível em filme pelo YouTube



quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Semana Sertaneja - A Bagaceira

A Bagaceira - de José Américo de Almeida



A Bagaceira, publicada em 1928, é a obra introdutora do romance regionalista no país. A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações periódicas. Os sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome de brejeiro cruelmente pejorativo.

O enredo do romance trata das questões do êxodo, os horrores gerados pela seca, além da visão brutal e autoritária do senhor de engenho, representando a velha oligarquia. A Bagaceira tem intenção crítica social, descambando, às vezes, para o panfletário, para o enfático e demagógico. Para o autor, o romance procura confrontar, em termos de relações humanas e de contrastes sociais, o homem do sertão e o homem do brejo (dos engenhos). Aproximando o sertanejo do brejeiro, na paisagem nordestina, José Américo de Almeida condiciona os elementos dramáticos aos ciclos periódicos da seca, os quais delimitam a própria existência do sertanejo.

Sob iluminação diferente, são postos em confronto, em A Bagaceira, os nordestinos do brejo e os do sertão. Brejeiros e sertanejos, submissão e liberdade, eram examinados com uma visão realista, se bem que, no registro das virtudes sertanejas possa notar-se, vez por outra, certo favorecimento (não intencional).

O título desse romance denomina o local em que se juntam, no engenho, os bagaços da cana. Figuradamente, pode indicar um objeto sem importância, ou ainda, “gente miserável”. Todos esses significados se podem mobilizar no entendimento de A Bagaceira, romance de ardor e violência, desavenças familiares, flagelações da seca.

O autor que, antes, estreara vitoriosamente no ensaio, deixa transparecer aprofundado conhecimento do ambiente e do homem paraibano, anotando pormenores, acentuando os traços mais definidores, integrado na paisagem e na estrutura social cheia de injustiças.

O tempo é entre 1898 e 1915, os dois períodos de seca. Tangidos pelo sol implacável, Valentim Pereira, sua filha Soledade e o afilhado Pirunga abandonam a fazenda do Bondó, na zona do sertão. Vão para as regiões dos engenhos, no rejo, onde encontram acolhida no engenho Marzagão, de propriedade de Dagoberto Marçau, cuja mulher falecera por ocasião do nascimento do único filho, Lúcio. Passando as férias no engenho, Lúcio conhece Soledade por quem se apaixona. Lúcio retorna à academia e quando retorna em férias para a companhia do pai, toma conhecimento de que Valentim Pereira se encontra preso por ter assassinado o feitor Manuel Broca, suposto sedutor e amante de Soledade. Lúcio, já advogado, resolve defender Valentim e informa o pai de sua intenção de casar-se com Soledade. Dagoberto não aceita a decisão do filho. E então tudo é esclarecido: Soledade é prima de Lúcio, e Dagoberto foi quem realmente a seduziu. Pirunga, tomando conhecimento dos fatos, comunica ao padrinho (Valentim) e este lhe pede, sob juramento, velar pelo senhor do engenho (Dagoberto), até que ele possa executar o seu “dever”: matar o verdadeiro sedutor de sua filha. Em seguida, Soledade e Dagoberto, acompanhados por Pirunga, deixam o engenho e se dirigem para a fazenda do Bondó. Cavalgando pelos tabuleiros da fazenda, Pirunga provoca a morte do senhor do engenho Marzagão, herdado por Lúcio, com a morte do pai. Em 1915, por outro período de seca, Soledade, já com a beleza destruída pelo tempo, vai ao encontro de Lúcio, para lhe entregar o filho, fruto do seu amor com Dagoberto.

O relato abre o ciclo do romance de 1930, entre outras razões por sua força de denúncia dos horrores gerados pela seca.

É digno de nota o prefácio que vale tanto ou mais do que próprio texto narrativo. Destaque para o espanto do escritor face às mazelas: “Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã.”

Na narrativa há um choque de três visões que correspondem a três processos sócio-culturais distintos:
  • Visão rústica dos sertanejos, com seu sentido ético arcaico.
  • Visão brutal e autoritária do senhor de engenho, representando a velha oligarquia.
  • Visão civilizada (moderna, urbana) de Lúcio, traduzindo um novo comportamento de fundo burguês e que logo seria autorizado pela Revolução de 30.

É digno de nota o projeto modernizador do personagem Lúcio ao assumir o comando do engenho: alfabetização dos filhos dos trabalhadores, melhores condições de habitação, etc. Ou seja, aquilo que Getúlio Vargas proporia nos anos seguintes como alternativa para o país.

O livro apresenta uma mistura de linguagem tradicional – dominada por um tom desagradavelmente sentencioso – com um gosto modernista por elipses e imagens soltas, e ainda pelo uso de algumas expressões coloquiais ou regionais. Na obra a linguagem do narrador faz esforço para não se afastar em demasia da dos personagens, dialetal, folclórica.

Personagens

Dagoberto Marçau – Proprietário do engenho Marzagão, simboliza a prepotência, contrapondo-se à fraqueza dos trabalhadores da bagaceira. Considera-se “dono ” da justiça e seu código é simples: “O que está na terra é da terra”. Se ele é o senhor da terra, tudo que nela dá é da terra (ou seja, dele próprio). “Se ele é o senhor da terra, tudo que nela se encontra lhe pertence, até os próprios homens que trabalham no engenho. Assim pensa e assim age. Seduz Soledade, vendo na sertaneja semelhança com sua ex-mulher.

Lúcio – Humano, idealista, sonhador, apaixona-se por Soledade, com quem mantém um romance puro. Não compartilha as idéias de seu pai, Dagoberto Marçau, para quem “hoje em dia não se guarda mais na cabeça: só se deve guardar nas algibeiras”. Acreditava que se podia desmontar a estrutura anacrônica do engenho: “Quanta energia mal empregada na desorientação dos processos agrícolas!”

A falta de método acarretava uma precariedade responsável pelos apertos da população misérrima. A gleba inesgotável era aviltada por essa prostração econômica. “A mediania do senhor rural e a ralé faminta”.

Soledade – Filha de Valentim Pereira, representa a beleza agreste do sertão. Aos olhos de Lúcio, a sertaneja. “não correspondia pela harmonia dos caracteres às exigências do seu sentimento do tipo humano. Mas, não sabia por que, achava-lhe um sainete novo na feminilidade indefinível. As linhas físicas não seriam tão puras. Mas o todo picante tinha o sabor esquisito que se requintava em certa desproporção dos contornos e, notadamente, no centro petulante dos olhos originais.”… “Era o tipo modelar de uma raça selecionada , sem mescla, na mais sadia consangüinidade.”

A presença da sertaneja no engenho colocará uma barreira ainda maior entre Dagoberto e Lúcio. Por Soledade Valentim se torna assassino e Pirunga causa a morte do senhor de engenho.

Valentim Pereira – Representa o sertão: destemido, arrojado e altivo. Como bom sertanejo pune pela honra de uma mulher, mata o feitor Manuel Broca, apontado como sedutor de sua filha. Mas a “idéia fixa da honra sertaneja” vai além: a cicatriz que lhe marcava o rosto era resultado de uma briga mortal com um amigo, que desonrara uma moça, neta de um “velhinho”, de quem o tempo quebrara as forças. O diálogo entre Valentim e Brandão de Batalaia (assim se chamava o “velhinho”) é bem ilustrativo: “Que é que vossamecê manda? Ele respondeu que só queria era morrer. Eu ajuntei: E por que não quer matar?…”

Pirunga – Filho de criação de Valentim Pereira, a quem tributa lealdade. Ama Soledade, mas seu amor não encontra receptividade. Assim como Valentim, simboliza o sertão: valente, intrépido, altivo… Por ocasião da festa no rancho, vai em defesa de Latomia: enfrentando a polícia.
Fonte: Marijane

Leia também A Bagaceira em HQ

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Semana Indígena - Iracema

“Iracema” – Resumo e análise do livro de José de Alencar
Escrito em prosa poética, esse romance é um dos principais representantes da vertente indianista do movimento romântico



A narrativa de Iracema estrutura-se em torno da história do amor de Martim por Iracema.
Diferentemente do que ocorre em outros romances de José de Alencar, como em O Guarani, o enredo de Iracema é aberto a interpretações. A relação entre Martim e Iracema significa a união entre o branco colonizador e o índio, entre a cultura europeia, civilizada, e os valores indígenas, apresentados como naturalmente bons. É uma espécie de mito de fundação da identidade brasileira.

Ainda menino, Alencar fez uma viagem pelo sertão. A experiência dessa viagem de garoto seria constantemente evocada pelo futuro escritor em seus romances, com imagens e impressões da exuberante natureza brasileira. Alguns espaços merecem destaque por ser palco de importantes acontecimentos desse romance: o campo dos tabajaras, onde fica a taba do pajé Araquém, pai de Iracema; a taba de Jacaúna, na terra dos potiguaras (ou pitiguaras); a praia em que vivem Martim e Iracema e onde nasce Moacir.

IMAGENS E METÁFORAS


Uma das grandes habilidades de Alencar está em representar o pensamento selvagem por meio de uma linguagem cheia de imagens e de metáforas. Sabe-se que as sociedades que não avançaram no terreno da lógica argumentativa (que pressupõe noções científicas básicas) têm em contrapartida grande riqueza no plano mitológico. Elas se valem dos mitos e das histórias para explicar o mundo.
O pensamento do selvagem é imagético e, por isso, está muito próximo da poesia. Vê-se nesse ponto como o autor soube unir forma e conteúdo. De outro modo seria difícil caracterizar a linguagem do índio sem prejuízo da verossimilhança.

BASE HISTÓRICA

A narrativa inicia-se em 1608, quando Martim Soares Moreno é indicado para regularizar a colonização da região que mais tarde seria conhecida como Ceará.

José de Alencar era leitor assíduo de Walter Scott, criador do romance histórico, e foi influenciado por esse escritor. Como em vários romances de Alencar, Iracema mistura ficção e documento, com enredo que toma como base um argumento histórico. Essa junção se deve também ao projeto de criação de uma literatura nacional, no qual Alencar e os demais escritores românticos do seu tempo estavam fortemente empenhados.

Ainda quanto ao aspecto histórico, que o autor levou em conta ao compor a obra, ressalte-se que os índios potiguaras (habitantes do litoral) eram aliados dos portugueses, enquanto os tabajaras (habitantes das serras cearenses) eram aliados dos franceses.

ENREDO

A primeira cena antecipa o fim do livro, o que reforça a unidade da obra: Martim e Moacir deixam a costa do Ceará em uma embarcação, quando o vento lhes traz aos ouvidos o nome de Iracema.

No segundo capítulo, a narrativa retrocede no tempo até o nascimento de Iracema. A personagem é então apresentada ao leitor: “Virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”. A índia é descrita como uma linda e excelente guerreira tabajara, “mais rápida que a ema selvagem”. Por isso mesmo, sua reação ao avistar o explorador Martim é desferir-lhe uma flechada certeira. Essa é também uma referência à flecha de cupido, já que, desde o primeiro olhar trocado pelos personagens, se percebe o amor que floresce entre os dois.

Martim desiste de atacar a índia assim que põe os olhos nela. Iracema, por sua vez, parece ter atirado a flecha por puro reflexo, pois logo depois se arrepende do gesto e salva o estrangeiro, levando-o até sua aldeia.

Martim é recolhido à aldeia pelo pajé Araquém, pai de Iracema, e apresenta-se a ele como um aliado de seus inimigos potiguaras que se perdera durante uma caçada. O pajé o trata com grande hospitalidade e garante hospedagem, mulheres e a proteção de mil guerreiros.

Iracema oferece mulheres a Martim, que prontamente as recusa e revela sua paixão por ela. O amor de Martim é cristão, idealizado. O de Iracema também, mas por motivo diverso: ela guarda o segredo da jurema, por isso precisa manter se virgem. Esse é o estratagema que Alencar utiliza para transpor o amor romântico europeu às terras americanas. Uma índia, criada fora dos dogmas cristãos, não teria motivos para preservar sua virgindade.

AMOR PROIBIDO

As proibições reforçam ainda mais o amor entre a índia e o português. São as primeiras de muitas provações que tal união terá de enfrentar. Em linhas gerais, o romance estrutura-se no embate entre tudo o que une e o que separa os dois amantes.

Irapuã é o chefe guerreiro tabajara e funcionará, no esquema narrativo da obra, como um antagonista de Martim. Na primeira desavença entre os dois, o velho pajé Andira, irmão de Araquém, intervém em favor do estrangeiro. Iracema pergunta ao amado o motivo de sua tristeza e, percebendo que ele tinha saudade de seu povo, pergunta se uma noiva branca espera pelo seu guerreiro. “Ela não é mais doce do que Iracema”, responde Martim. Irapuã nutre amor não correspondido pela virgem e logo reconhece no português um inimigo mortal.

Iracema conduz Martim ao bosque sagrado, onde lhe ministra uma poção alucinógena. O guerreiro branco delira, e a índia adormece entre os seus braços.

Enquanto isso, Itapuã continua alimentando planos para se livrar do estrangeiro. O amor entre os protagonistas parece impossível de se concretizar, por isso Martim é coagido por Iracema a voltar para sua terra. Caubi, irmão de Iracema, acompanha-os. No caminho de volta, porém, são atacados por guerreiros liderados por Irapuã. Martim, Iracema e Caubi refugiam-se na taba do pajé Araquém, que usa de um truque para salvar o português da ira do chefe guerreiro.

Sucede-se o encontro amoroso entre Martim e Iracema, narrado delicadamente pelo autor. Martim está inconsciente por ter ingerido a bebida da jurema e a índia deita-se ao seu lado. A frase “Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras” é a sutil indicação de que a união amorosa se realizara.
Os acontecimentos que se seguem têm como pano de fundo a guerra entre potiguaras e tabajaras. Martim escapa de seus inimigos tabajaras e une-se aos vencedores potiguaras. Iracema, porém, sente-se profundamente triste pela morte dos entes queridos e não suporta viver na terra de seus inimigos.

O casal muda-se então para uma cabana afastada, localizada numa praia idílica. Com eles vai Poti, o grande amigo de Martim. Lá vivem um tempo de felicidade, culminando com a gravidez de Iracema e o batismo indígena de Martim, que recebe o nome de Coatiabo, ou “gente pintada”. Com o passar do tempo, contudo, o português se entristece por não poder dar vazão a seu espírito guerreiro e por estar com muita saudade de sua gente. A bela índia tabajara também se mostra cada vez mais triste.
Numa ocasião em que Martim e Poti saem para uma batalha, nasce o filho, Moacir. Quando os dois amigos voltam da guerra, encontram Iracema à beira da morte. O corpo da índia é enterrado aos pés de um coqueiro, em cujas folhas se pode ouvir um lamento. Daí vem o nome Ceará, canto de sua jandaia de estimação, uma ave que sempre a acompanhava.

CONCLUSÃO

Iracema, por amor a Martim, abandona família, povo, religião e deus. É uma clara referência à submissão do indígena ao colonizador português. Alguns dizem que o nome Iracema é também um anagrama de América.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Semana Indígena - O Guarani

“O Guarani” – Análise da obra de José de Alencar
Entenda os principais aspectos da obra




A formação do povo brasileiro

"O Guarani" foi publicado originalmente como folhetim de janeiro a abril de 1957, sendo lançado na forma de livro no final desse mesmo ano. A obra é um dos maiores representantes da primeira fase do modernismo brasileiro, conhecida como fase indianista. Como o próprio nome diz, essa fase procurava valorizar o índio de forma a transformá-lo em um verdadeiro herói nacional. José de Alencar tinha a intenção de criar obras que mostrassem a realidade brasileira de sua época, exibindo as belezas do Brasil e o índio. Assim, Alencar contou através da história de amor de Peri e Ceci em “O Guarani” o tema da miscigenação entre o índio e o branco.
Na época de seu lançamento, “O Guarani” obteve muito sucesso de público e crítica. Os leitores de então já estavam acostumados com a leitura de folhetins, mas o formato “romance” ainda não estava bem desenvolvido no Brasil. Com o lançamento de “O Guarani”, esse novo gênero literário ganhou força e passou a ser produzido com maior frequência e qualidade pelos escritores brasileiros. Por conta disso, essa obra é considerada o primeiro grande romance brasileiro. Uma característica interessante de “O Guarani” é que José de Alencar foi escrevendo a história de acordo com a opinião que recebia de seus leitores. Diversas vezes ele mudou o destino de alguma personagem por ter recebido reclamação ou sugestões.
“O Guarani” também pode ser considerado um romance histórico, uma vez que diversas personagens são inspiradas em pessoas reais. Além disso, têm-se também uma caracterização do Brasil da época como sendo um espelho da Europa medieval. Um exemplo significante é o de D. Antônio de Mariz, cuja fortaleza é descrita como sendo uma mistura da arquitetura colonial brasileira com a de um castelo medieval. Além disso, a relação dele com a de seus empregados é igual a que um senhor feudal tem com seus vassalos.
A estrutura do romance também segue o clássico modelo da história romântica: há uma moça bonita, o herói e o vilão. Ceci é a bela “princesa” loira e pura, filha do nobre D. Antônio de Mariz. Por ela se apaixonam três homens: Loredano, Álvaro e Peri. Loredano, que na verdade é o frei Ângelo di Luca, é o grande vilão do romance e sua paixão por Ceci não passa de um desejo sexual. Em contraste a Loredano está Peri, o índio e grande herói da história. Seu amor por Ceci tem tons de sagrado e ele a vê como uma imagem de Nossa senhora. No meio desses dois opostos encontra-se o nobre cavalheiro Álvaro, que ama Ceci de forma respeitosa e a vê como futura esposa. Porém, em certo momento ele acaba se envolvendo com Isabel, uma moça mestiça filha de D. Antônio com uma índia. Isabel é uma personagem com bastante força dentro da história, uma vez que ela encarna o complexo de inferioridade e o preconceito que sofre por ser mestiça.
O amor de Peri e Ceci é representado bem ao gosto do romantismo: Peri é o herói que se dedica inteiramente a sua amada, idolatrando-a como sua senhora. Ao final do romance, Peri realiza um ato heroico de sacrifício tomando veneno para que a tribo antropófaga dos aimorés morresse envenenada após comer sua carne. Porém, Álvaro acaba convencendo-o a tomar o antídoto e é salvo. Após a derrota dos portugueses, D. Antônio pede a Peri que ele se converta ao cristianismo e fuja com sua filha Ceci.
Dessa forma, o índio abandona sua tribo, língua e religião em nome de sua amada. Esta gradual transformação de Peri mostra a imposição da cultura branca e do cristianismo, e uma posterior assimilação do “selvagem” idealizado. Por fim, cabe ressaltar que a cena final de Peri e Ceci sumindo no horizonte seria uma representação das origens do povo brasileiro. Assim, sendo um casal formado por uma portuguesa e por um índio, eles seriam os fundadores da nação brasileira.

Narrador

“O Guarani” apresenta foco narrativo em terceira pessoa, sendo o narrador onisciente intruso. Ou seja, o narrador não só possui acesso aos pensamentos e sentimentos das personagens, como também expõe ao longo da narrativa comentários sobre as atitudes das personagens. Essa parcialidade e falta de distanciamento do narrador serve para induzir o leitor a acreditar na tese indianista de exaltação à natureza e eleição do índio como herói nacional.

Comentário do professor

O professor Marcílio Lopes Couto, do Colégio Anglo, frisa que para entender “O Guarani” é preciso pensa-lo dentro de um projeto pedagógico concebido por José de Alencar, cuja intenção era compreender e mostrar a realidade brasileira de então. O prof. Marcílio explica que estava-se em um momento histórico diretamente posterior ao da Independência do Brasil e havia-se a necessidade de criar uma cultura propriamente brasileira, diferenciando-a da cultura de Portugal. Se a língua e outros traços culturais eram iguais, o que encontraram como símbolo do Brasil foi justamente a própria terra, com suas belezas e encantos, e o índio, elegido como verdadeiro herói nacional.
Na figura do índio foram encerrados todos os valores que gostariam de ser associados ao homem brasileiro, tais como honra, lealdade, devoção à amada e sobretudo o amor pela terra. O prof. Marcílio lembra que a figura do índio dentro do Romantismo brasileiro é claramente idealizada, sendo que os próprios autores tinham consciência disso, mas pensando-se dentro do momento histórico em que a obra foi concebida a figura do índio surge como símbolo máximo da terra brasileira. Portanto, o índio Peri, protagonista de “O Guarani”, deve ser entendido como um símbolo da terra brasileira.
Além da relação de Peri com a terra, outro ponto importante do livro é a relação amorosa de Peri e Ceci, que aproxima-se do endeusamento, da devoção religiosa. Ceci é uma “moça especial”, pois apesar de sua origem europeia e de sua condição aristocrática, ela é uma moça que se mostra muito apegada à natureza selvagem e entende a terra brasileira. Assim, a relação de Ceci com a terra também é um ponto que merece atenção, diz o prof. Marcílio. Ainda sobre o amor entre Ceci e Peri, deve-se ter em mente que a união entre os dois é uma alegoria da criação da raça brasileira. A união do casal não fica explícita, como acontece por exemplo em Iracema, mas é sugerida ao final do livro quando eles resolvem ficar juntos na natureza selvagem e partem.
Por fim, o prof. Marcílio lembra ainda que existem outras tramas paralelas na obra, tais como a relação de Isabel e Álvaro. Isabel é filha bastarda do pai de Ceci e representa um novo padrão de beleza, que seria a beleza brasileira, e há sempre um contraste entre essas duas moças.
Fonte: Guia do Estudante

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Semana Indígena - Macunaíma


“Macunaíma” – Análise da obra de Mario de Andrade
Entenda os principais aspectos da obra

Com uma narrativa de caráter mítico, em que os acontecimentos não seguem as convenções realistas, Macunaíma procura fazer um retrato do povo brasileiro, por meio do “herói sem caráter”.


Rapsódia

“Macunaíma” é fruto do conhecimento reunido por Mario de Andrade acerca das lendas e mitos indígenas e folclóricos. Dessa forma, pode-se dizer que a obra é uma rapsódia, que é uma palavra que vem do grego e designa obras tais como a Ilíada e a Odisseia de Homero. Para os gregos, uma rapsódia é uma obra literária que condensa todas as tradições orais e folclóricas de um povo. Além disso, na música (Mario de Andrade tinha formação musical também) uma rapsódia utiliza contos tradicionais ou populares de certo povo em temas de composição improvisada.
Há, ainda, uma aproximação ao gênero épico: à medida que o livro narra, em trechos fragmentados, a vida de um personagem que simboliza uma nação. Sobre a acepção musical dada pelo dicionário, chama atenção o improviso da narrativa, que impressiona e surpreende a cada momento, tendo como pano de fundo a cultura popular.
O enredo dessa rapsódia pode tornar-se confuso ao leitor acostumado ao pacto de verossimilhança realista. Por exemplo, é necessário aceitar o fato de o protagonista morrer duas vezes no romance; ou, então, que Macunaíma, em uma fuga, possa estar em Manaus e, algumas linhas depois, aparecer na Argentina; ou ainda o fato de o herói encontrar uma poça que embranquece quem nela se banha.
A verossimilhança em questão é surrealista e deve ser lida de forma simbólica. A cena em que Macunaíma e seus dois irmãos se banham na água que embranquece pode ser entendida como o símbolo das três etnias que formaram o Brasil: o branco, vindo da Europa; o negro, trazido como escravo da África; e o índio nativo. Nessa cena, Macunaíma é o primeiro a se banhar e torna-se loiro. Jiguê é o segundo, e como a água já estava “suja” do negrume do herói, fica com a cor de bronze (índio); por último, Manaape, que simboliza o negro, só embranquece a palma das mãos e a sola dos pés.

Retrato do povo brasileiro

O livro faz parte da primeira fase modernista – a fase heroica. A influência das vanguardas europeias é visível em várias técnicas inovadoras de linguagem que a obra apresenta. Por isso, “Macunaíma” pode oferecer algumas dificuldades ao leitor desavisado.
Há inúmeras referências ao folclore brasileiro. A narrativa se aproxima da oralidade – no capítulo “Cartas pras Icamiabas”, Macunaíma ironiza o povo de São Paulo, que fala em uma língua e escreve em outra. Além disso, não existe verossimilhança realista.
Alguns aspectos históricos motivaram Mário de Andrade a criar tais “empecilhos”. A referência ao folclore brasileiro e à linguagem oral é manifestação típica da primeira fase modernista, quando os escritores estavam preocupados em descobrir a identidade do país e do brasileiro. No plano formal, essa busca se dá pela linguagem falada no Brasil, ignorando, ou melhor, desafiando o português lusitano. No plano temático, a utilização do folclore servia como matéria-prima dessa busca.
“Macunaíma” é, portanto, uma tentativa de construção do retrato do povo brasileiro. Essa tentativa não era nova. O autor romântico José de Alencar, por exemplo, tivera a mesma intenção ao criar, no romance O Guarani, o personagem Peri, índio de aspirações nobres, que se assemelhava, em relação a sua conduta ética, a um cavaleiro medieval lusitano. Não é exagero dizer, se compararmos Peri a Macunaíma, que esse é o oposto daquele. Enquanto o primeiro é valente, extremamente perseverante e encontra suas motivações nos valores da ética e da moral, Macunaíma, além de indolente, conduz a maioria de seus atos movido pelo prazer terreno, mundano. É “o herói sem nenhum caráter”.
Assim, “Macunaíma” é uma obra que busca sintetizar o caráter brasileiro, segundo as convicções da primeira fase modernista. Uma leitura possível é a de que o povo brasileiro não tem um caráter definido e o Brasil é um país grande como o corpo de Macunaíma, mas imaturo, característica que é simbolizada pela cabeça pequena do herói.

Narrador

A crítica literária contemporânea faz questão de considerar a diferença entre o autor e o narrador: esse é tido como uma criação daquele. No caso de “Macunaíma”, no entanto, essa distinção pode ser questionada, quando o narrador aparece no último capítulo. No “Epílogo”, o narrador revela que a história que acabara de narrar havia sido contada por um papagaio, que, por sua vez, a tinha ouvido de Macunaíma: “Tudo ele – o papagaio – contou pro homem e depois abriu asa rumo a Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história”. Essa interferência do narrador, da forma como foi feita, aproxima-o do autor, no caso Mário de Andrade.

Tempo e espaço

Por tratar-se de uma narrativa mítica, o tempo e o espaço da obra não estão precisamente definidos, tendo como base a realidade. Pode-se dizer apenas que o espaço é prioritariamente o espaço geográfico brasileiro, com algumas referências ao exterior, enquanto o tempo cronológico da narrativa se mostra indefinido.

Comentário do professor

O prof. Marcílio Lopes Couto, do Colégio Anglo, ressalta que “Macunaíma” é uma obra inserida nas propostas da Semana de Arte Moderna de 1922. Mario de Andrade, assim como outros modernistas, busca resgatar a imagem do Brasil, sendo, portanto, uma obrar com caráter nacionalista. Porém, esse nacionalismo não é dado da mesma forma que o nacionalismo dos escritores do Romantismo, que usavam a figura idealizada do índio. Em Macunaíma o nacionalismo tem um caráter crítico e a figura do índio aparece causando uma reflexão sobre o que é ser brasileiro.
Além disso, o prof. Marcílio também destaca que pretendia-se criar uma literatura brasileira, resgatando a brasilidade através das lendas e folclores de raiz latino-americana (principalmente indígenas), e moderna. O caráter “moderno” da obra se dá principalmente através do aspecto formal do texto, com uma linguagem coloquial, que foge da norma culta e de qualquer erudição vazia. Outro ponto destacado pelo professor, é que o estranhamento causado pela leitura de “Macunaíma” muitas vezes se deve ao distanciamento que temos das lendas e folclores latino-americanos.
Por fim, o prof. Marcílio acredita que, devido à importância que o aspecto formal tem na obra, o vestibular pode exigir conhecimentos referentes a linguagem utilizada e a própria maneira como o autor escreve o livro. Um exemplo seria a utilização do famoso capítulo IX, “Carta para Icamiabas”, para discutir estes aspectos formais. Nesse capítulo, Macunaíma está em São Paulo e escreve uma carta para as Icamiabas (índias da qual Macunaíma seria o rei) utilizando o português erudito. Porém, Macunaíma não domina as normas da língua escrita e acaba cometendo alguns deslizes, o que causa um efeito cômico. O vestibular poderia pedir para o aluno justificar a presença dessa carta no livro e qual a coerência com o restante da obra.